19/02/2022
[RESENHA - LIVRO] - Por: Pietra Von Bretch
“Quando a apatia e o desânimo são maiores que a indignação, somos apenas cadáveres que andam sobre a terra”.
Autópsia Carioca é um soco no estômago daquele que te deixa sem ar, nauseado, curvado em posição fetal. Uma distopia política que tem o Rio de Janeiro como cenário e os cariocas como protagonistas de um pesadelo.
Vinicius Canabarro traz uma história densa, angustiante, com elementos que remetem à ditadura, censura, à subtração da liberdade de expressão, que entrega medo, apreensão, choque, paralisia frente às atrocidades narradas com maestria pelo autor.
O livro acompanha um homem já idoso que conta ao leitor suas vivências ao longo de décadas (Devo confessar que visualizei esse texto encenado no teatro). Na ficção, uma névoa roxa, um miasma mortífero atinge a cidade do RJ ao mesmo tempo em que um governo totalitário disfarçado por nobres intenções se levanta, e é apoiado pela população.
No final da leitura me dei conta de que não sabia (ou não lembrava) o nome do narrador. Ao refletir, parece algo proposital posto pelo autor para incomodar a quem lê. As experiências são tão dolorosas e sem tratamento, que a identidade do sujeito se perde em meio ao lodo social.
É impossível não associar o plot à pandemia que ainda vivemos, e penso que a intenção foi essa. A cada página, o autor entrega aspectos aterradores que serão reconhecidos pela maioria dos que lerão a obra. Em certa altura, tive medo…a sensação era sufocante e quase premonitória. “E se fizerem exatamente isso na cidade, no país? E se realmente houver simpatia pela naturalização do absurdo e não fizermos nada a respeito?”.
Trata-se de um livro necessário nos tempos sombrios em que vivemos. Trata-se de uma obra que leva à reflexão, que mexe com os nervos e incita a resistência e a ação contra qualquer tipo de dominação, contra o autoritarismo, as intolerâncias, contra o ódio, e principalmente contra a inércia.
Definitivamente, o povo não deve ter medo de seu governo. Portanto, que nada, nem ninguém seja capaz de calar nossas vozes.
“A paz sem voz, não é paz, é medo”.