11/04/2026
Porque é que me mentes?
Há um par de anos, escrevi aqui sobre um filme sublime.
Um filme que Visconti não rejeitaria realizar.
«Chama-me pelo teu nome».
Onde se respirava uma história de amor entre Elio e Oliver.
Voltei a pensar nele quando ontem - em duas viagens de comboio - li «Deixa-te de mentiras», de Philippe Besson.
De um fumo aceso e vácuo que atravessou as vidas de Thomas e Philippe.
Numa escrita de água pura, como se não houvesse ditongos ou sílabas a mais.
*
Do filme de Guadagnino ficou-me uma impressão, uma aguarela.
Sobre ele - e temo tanto a sequela que se anuncia pois há pérolas que não precisam de ser reinventadas - escrevi:
«Dizer que se trata de um "drama gay" é reduzir o filme a um tamanho injusto.
Ao mesmo tempo em que ambos os personagens estabelecem, com sinceridade, uma relação própria, nada impede que eles dêem vazão a outras experiências, sobretudo no caso de Élio, que descobre o mundo e a sua própria sexualidade.
E a beleza é o apelido desta obra a cheirar por todos os lados ao melhor Visconti.
Descritivo, cheiroso, lento como os sentimentos, e rápido como as paixões.
O propósito de Call Me By Your Name (no original) é retratar uma história de amadurecimento. É como se o "conflito" descansasse na sombra, à espera de uma mudança natural na posição do sol. E o que é revelado, no fim, é uma opção narrativa elegante e, acima de tudo, madura.
Nesse ambiente, a sexualidade não é uma questão. Interessa mais ao realizador Luca Guadagnino a exploração do desejo a partir de uma história pontual, do que o estudo moral de um grupo social.
É assim que ele evita o julgamento. E até as possíveis censuras morais por estarmos a ver um adulto a estabelecer um contacto íntimo com um menor de idade (17 anos)…
E que estranho título este que dão ao amor...
O nome deles.
Que se misturam em catadupa solar, como se soubesse ao suor alheiro o nosso próprio sal.
Primeiro, um chamar o outro pelo seu nome é algo que só eles sabem, é algo que tem um signif**ado especial apenas para eles.
Depois que, convenhamos, ninguém nos conhece – ou isso deveria ser sempre assim – melhor do que nós mesmos.
Então alguém viver uma relação com alguém ao ponto de chamar essa outra pessoa pelo seu nome, porque a conhece com toda essa profundidade, com toda essa intimidade… realmente é algo único.
Tem um pouco de Morte em Veneza,
Sem Brahms.
Mas com muito piano forte.
A sedução entre dois seres humanos (e que espectacular interpretação do jovem Timothée Chalamet!) é filmada com pinças, sem pressa.
Sentimos o calor, o refresco de pêssego, a tua mão que se aperta…
A água da fonte.
O suco do alperce.
E percebemos que, em certas ocasiões, falar ou morrer são as opções de uma vida.
Essa viagem de revelações mútuas culmina num monólogo final interpretado por Michael Stuhlbarg, um monstro do teatro, que entra na pele do pai de Élio.
Neste monólogo, Mr. Perlman diz ao filho que sabe que se passou algo entre ele e o académico mais velho; ao invés de o questionar, sublima-o. Porque ser consumido por uma paixão é algo mágico, que nem todos têm a oportunidade de viver.
«Amor é amor é amor é amor», disse Michael.
«Temos sorte de estar vivos. E sorte de nos termos uns aos outros, de viver as coisas de forma profunda quando podemos. Tive a oportunidade de interpretar um homem que ama o filho e está presente para ele, que ouve, tem compaixão».
E aqui se resolvem mil preconceitos que temos alojados no nosso jarrão da entrada.
Resolvemos, naquele momento, revisitar todas estas ideias e preconceitos sobre o que está certo e errado nas relações dos outros. Mas tal não impede uma conversa sobre o que é consentimento, poder e desigualdade numa relação entre um adulto e alguém que está à beira da idade que a sociedade considera adulta - ainda que em Itália, nos anos oitenta (a acção ocorre em 1983), a idade do consentimento fosse 14 anos.
Vale SENTIR.
E isso basta ao amor?»
*
Da escrita de Besson, f**a-me um travo amargo a um doce de pêssego acabado de fazer.
Um encontro juvenil e martirizado pela clandestinidade.
Uma história de renúncias e deserções.
E de tardias reconciliações com a verdadeira natureza de cada um.
Sobre este registo autobiográfico, escreveu Besson:
«Mesmo inventando as histórias, escreve-se com o que se é, com o que se viveu. E muitos dos meus livros falam de vidas que foram vencidas. Nenhum escritor escreve apenas em função de uma abstração. Isso é impossível.
(...)
Não se trata de um romance no sentido estrito do termo, porque a historia é verdadeira.
Mas este livro também não é um testemunho, nem procurei que assim fosse.
O que me interessou com esta história de Thomas e Philippe foi tentar fazer dela uma história universal.
A minha esperança é a de que o leitor, independentemente da sua inclinação sexual, encontre eco da sua própria história. Basicamente, todas as histórias de amor complicadas são universais».
*
Duas obras que se cruzam.
Em histórias que podiam ter sido escritas pela mesma pessoa, pelo mesmo poeta.
Quase como Bunuel.
Ou um qualquer Debussy...