26/05/2015
Potlatch. Dar. Já não é só coisa dos índios americanos do Pacífico Norte. Nós, mergulhadores de bairro e capturadores de partículas de luz, também partilhamos com a nossa tribo objetos afetuosos de valor simbólico que nos transportam para cada um dos territórios ou, como nós lhes chamamos, bairros. Com estes objetos sentimos as pessoas, o ambiente, os costumes, as vivências, os sentimentos e a relação que cada um estabelece com o bairro em que mergulha.
Oferecemo-vos luz.
No nosso bairro todos nos falam da luz. Ora o Vasco que nos fala dela “assim num dia de sol com uma temperatura amena, voltar para Campo de Ourique é idílico.”, ora a Ema e a tia Olga que nos dizem “toda a gente fala da luz de Campo de Ourique, a luz se não tivesse um chão branco não era a mesma (…) é das poucas coisas que fazem um bairro único.” e ainda é muito apreciado pelos lagartos que apanham sol no jardim, desde os mais preguiçosos que se contentam com o sol na pele aos que ao primeiro raio já passeiam o cão.
Da primeira não, não se sabe, mas da segunda vez que lá se vai fica-se atento, da terceira entende-se, da quarta, quando são 5h da manhã e se vê o nascer do dia minutos depois de se mergulhar na fonte do Jardim da Parada, já se sente.
Esta ideia surgiu com o deambular pelo bairro, com a troca de palavras (aqui e acolá), os instantes que a máquina não captou foram desenhados segundo o traço e as definições da objetiva de cada um, assim à semelhança de uma máquina fotográfica, a nossa córnea foca a luz através da pupila para a retina, como se fosse uma lente fixa no nosso globo ocular. Os registos que se observam nas lâmpadas demonstram quatro olhares sobre Campo de Ourique, focando os espaços e os detalhes que mais nos tocam individualmente. Automaticamente fazemos zoom a esses e em pestanejares capturamos o momento (sem disparar flash).
Somos de metáforas. Queremos que os outros sintam o nosso bairro como nós o sentimos. Não os vamos levar lá (ainda). E se não vão a Campo de Ourique, trazemos Campo de Ourique até vocês. Os registos só podem ser devidamente vividos quando a lâmpada é acesa ou recebe luz (resultado da experiência que constatámos mais tarde) de modo a que estes sejam projetados à nossa volta, arrastando-nos para dentro do bairro.
Os bilhetes baseiam-se em testemunhos, pequenos momentos que ficaram registados na nossa memória de conversas. Estão associados ao sitio desenhado, bem como as ruas nomeadas.
Por fim, o packaging foi pensado pela fragilidade do objeto. As caixas foram embrulhadas com o papel usado para embrulhar os bolos, retirado de uma das bancas do mercado.