07/04/2020
Aproveitando que o filme de Ken Loach, "Eu, Daniel Blake", retornou à Netflix e que a Reconstrução do Mundo depende de analisarmos criticamente nosso modo de vida, não podemos deixar de discuti-lo.
O filme conta a história de Daniel Blake, um carpinteiro de meia-idade, acometido por uma doença do coração, em sua plena "capacidade produtiva". O termo está entre aspas, porque capacidade produtiva considerada frente às exigências do sistema capitalista, que transforma em obsoleto aquele que não pode mais exercer seu ofício. Um ofício imposto como exigência de inclusão nesse mesmo sistema capitalista que se denomina liberal, mas que exige aptidão para trabalhos necessários ao pleno funcionamento de sua máquina. E considera-se imposição de um determinado trabalho, porque, apesar de parecer se tratar de uma escolha, de haver liberdade para que cada um exerça o ofício para o qual possui aptidão, de aparente exercício de livre-arbítrio, trata-se somente de uma ilusão: a ilusão da vocação divina a uma profissão, conforme apontado por Weber quando discute trabalho e religião em sua "Ética protestante e o espírito do capitalismo". É uma pseudoautonomia.
Pois bem, depois de sofrer um ataque do coração, Daniel Blake se vê incapacitado para a função que exerceu durante 40 anos e que acredita, porque assim lhe foi determinado a acreditar, ser a única coisa que sabe fazer, sentimento que o obriga a estar frente a frente com o sistema e lhe solicitar auxílio-doença. O filme, então, é a história de sua peregrinação por esse sistema para que, enquanto incapacitado, o Estado lhe provenha a subsistência.
Daniel precisa entrar na fila dos desesperados, dos excluídos, literalmente, a fila dos que esperam a morte. E, enquanto busca seu auxílio-subsistência, Daniel se reconhece em outra personagem do submundo dos espoliados: uma mãe solo de dois filhos, que não pode mais estudar, porque tem de criar os filhos, mas também não consegue emprego, porque além de serem escassos, não pode trabalhar nos horários do contraturno da escola das crianças. Juntos, criam um laço de solidariedade da subsistência: Daniel ajuda Katie nos reparos de sua moradia, fornecida como beneplácito pelo governo - que lhe obrigada a morar o mais distante possível da capital produtiva - , e Katie empresta a Daniel sua família, para que este não morra de solidão e tristeza no meio do caminho de sua luta pela esmola governamental.
Daniel é a todo tempo humilhado pelas respostas do Estado, e a crueldade é transmitida por seus funcionários que funcionam como reflexos da máquina. Mas Daniel resiste em desistir, porque acredita que desistência é o desejo do sistema, e luta com suas parcas armas - protesto e insistência.
O filme escancara as dificuldades impostas para a obtenção da ajuda pelo Estado, mostra os erros e etapas ilógicas do sistema, que deixam Daniel, Katie e tantos outros com as mãos estendidas e os joelhos no chão, perdidos num labirinto eterno.
"Eu, Daniel Blake" retrata com uma sensibilidade incrível as falhas (ou propósito) de um sistema altamente burocrático, que joga as pessoas na lama, humilha, pisa em cima e mata.
Enquanto você for produtivo, muito bem. Mas se não puder colaborar para o enriquecimento de uns poucos, é descartado sem dó nem piedade.
É só observar o sentimento de alívio provocado no início da pandemia em que se pensava que apenas velhos e doentes corriam risco de morte com a doença e os conselhos de "volte a trabalhar se você não é nenhum desses", "precisamos de você"!