28/01/2019
MICHEL LEGRAND 1932-2019
Em 25 de janeiro de 2019 perdemos o músico Michel Legrand, principal parceiro do diretor Jacques Demy, e um dos mais importantes compositores de trilhas sonoras de todos os tempos. Ao longo de 63 anos de carreira, Legrand compôs mais de 200 trilhas sonoras para filmes dos gêneros mais variados, de romance e musicais, até ação e suspense. Seu talento foi reconhecido com numerosos prêmios, inclusive três Oscar e cinco Grammy. Além de compositor, também era maestro, arranjador e pianista de jazz. Legrand adorava música brasileira, principalmente bossa nova, e esteve várias vezes no Brasil apresentando-se como jazzista.
Nasceu em Paris, em 24 de fevereiro de 1932. Estudou música erudita desde jovem. Porém, em 1942, assistiu a um show do Dizzy Gillespie, e se apaixonou perdidamente pelo jazz. A alternância entre o erudito e o jazz, e inclusive a combinação entre os dois estilos, viria a se tornar uma marca em sua carreira. Em 1954 Legrand se tornou famoso da noite para o dia, quando seu primeiro disco, "I Love Paris", vendeu nada menos que oito milhões de cópias. Começou a trabalhar com cinema em 1955. E no começo dos anos sessenta já era um dos compositores favoritos dos cineastas de Nouvelle Vague.
Em 1961 compôs a trilha sonora de “Lola A Flor Proibida”, de Jacques Demy. Esse foi o início de uma das mais brilhantes parcerias criativas da História do Cinema. No mesmo ano assinou a música de um dos primeiros filmes de Jean Luc Godard: “Uma Mulher É Uma Mulher”. Em 1962 não apenas compôs a trilha sonora, como também fez um pequeno papel, como pianista, em “Cléo Das 5 Às 7, da diretora Agnés Varda, esposa de Jacques Demy. Em 1965, Jacques Demy realizou o primeiro filme francês musical e colorido. Estrelado por Catherine Deneuve, “Os Guarda-Chuvas do Amor” é uma verdadeira ópera, inteiramente cantado do início ao fim. Três anos depois, como uma espécie de resposta à melancolia de seu filme anterior, Demy e Legrand realizaram “Duas Garotas Românticas”, que, com toda sua cor e números de dança, transborda de felicidade. Em 1970, Demy e Legrand encerraram o que passaria a ser identificada como uma trilogia de musicais estrelados por Catherine Deneuve. O filme, “Pele de A**o”, é um delicioso musical infantil baseado no conto de Charles Perrault, e conta com algumas das mais belas melodias de Legrand.
É claro que Hollywood não ia demorar muito tempo pra descobrir o talento de Michel Legrand. Nos Estados Unidos, o compositor teve a chance de provar a sua versatilidade, ao musicar filmes de ação e suspense, como a trilha totalmente sinfônica da espionagem “Estação Polar Zebra”. Em 1968, Legrand compôs para “Crown, o Magnífico” uma trilha que emprega influências do jazz para traduzir o mundo sofisticado de um magnata que planeja assaltos por prazer. Para esse filme, Legrand compôs a canção "The Windmills Of Your Mind", que lhe valeu o seu primeiro Oscar. O segundo Oscar do compositor viria apenas três anos depois, por sua trilha de “Era Uma Vez Um Verão”, que é carregada de romantismo e nostalgia. Em 1983 Legrand se tornou o primeiro compositor francês a compor uma trilha sonora para um filme de James Bond, “Nunca Mais Outra Vez”, que realizado fora da série oficial, marcou a última atuação de Sean Connery como 007. Em 1984, Barbra Streisand decidiu dirigir o seu primeiro filme, também estrelado por ela. “Yentl” conta a história de uma mulher judia com vocação para o estudo religioso quando esse era um terreno monopolizado pelos homens. Barbra queria fazer não exatamente um musical, mas o que ela chamou de "um filme com música". Ou seja, um filme em que a história é conduzida por canções que tocam apenas nos pensamentos da protagonista. Streisand convidou Legrand para o projeto. Graças ao resultado magnífico, Legrand foi premiado com o seu terceiro Oscar.
Desde o final dos anos noventa, Michel Legrand não trabalhava em Hollywood. Nas últimas décadas, voltou a se concentrar no cinema francês. Porém, em 2018 abriu uma exceção, para compor a trilha sonora de “O Outro Lado do Vento”, de Orson Welles. O filme, que tinha ficado inacabado depois da morte do diretor, finalmente foi concluído, e com uma trilha sonora com a “grife” Legrand. No começo de 2019 Michel Legrand trabalhava na trilha de uma comédia francesa e planejava uma turnê mundial para os meses seguintes. Mas, infelizmente, o compositor faleceu em 25 de janeiro, aos oitenta e seis anos de idade, de causas não divulgadas. Resta para nós todo o escopo de sua obra genial, nos filmes que compôs, e nos seus álbuns de trilhas sonoras e jazz.