16/07/2019
Cinema de Favela invade o MAM
Cinco cineastas de diferentes estilos e gerações apresentam suas obras na 17a edição do CineMAM
A antiga tradição do realismo social no cinema brasileiro parece estar mudando. Ao menos é o que indicam os filmes da Sessão Vidigal do CineMAM, evento que apresentará nova safra de filmes e realizadores da favela carioca, no dia 27 de julho, ás 17h, na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.
A relação homossexual entre duas mulheres (Amanhã já é outono, de Luciana Bezerra), um menino que descobre a arte (Cacumbu, de Daniel Paes), um homem atormentado com os fantasmas do passado (Marulho de Marcello Melo), mulheres da periferia que ganham superpoderes (Poder, de Sabrina Rosa) e uma mulher desalojada de seu lar com um jovem deficiente (Pé sem chão, de Sérgio Ricardo). Estas histórias se cruzam tendo em comum a produção de três gerações de diretores e artistas do Vidigal, favela da zona sul do Rio de Janeiro, conhecida por sua pujança expressiva. "Partindo do Vidigal, encontrei questões universais. As pessoas que fazem, vivem e sonham o Vidigal," afirma o curador da sessão, Felipe Cataldo. Para ele, o CineMAM cumpre sua missão de proporcionar este encontro: disponibilizar uma sala "excelente, histórica" para pré-estreias e filmes que circulam pouco. "A proposta surgiu dos próprios cineastas e foi acolhida. Marulho fará sua primeira exibição na tela grande. Cacumbu estreou aqui e volta agora no contexto da sessão. Luciana estava na última sessão e ao ouvir sobre a ideia prontamente aceitou que seu curta também fosse exibido", afirma Cataldo.
Para Sabrina Rosa, o processo de quebra de padrões não tem volta. "Quero mostrar que o Cinema de Favela é romance, ficção científica, fantasia, animação, infantil, musical, terror, que somos pop e podemos entrar no mercado" explica. Após o lançamento de Bandeira de Retalhos, mais recente longa-metragem de Sérgio Ricardo no festival de cinema de Tiradentes, em 2018, o crítico Rodrigo Fonseca cunhou o termo "cinema de mutirão", pois estava impressa na película a forma coletiva de realização da obra. De acordo com Marcello Melo, esta prática é uma constante do cinema realizado na Favela. "O coletivo foi a mola que impulsionou o processo de realização, o elenco colaborativo de amigos, em sua maioria do Vidigal. Uma equipe gigantesca , pois cada dia de filmagem a técnica se revezava, as parcerias os apoios (...) cada um que doou seu talento e tempo em prol de um sonho que passou assim ser coletivo", complementa.
Homenageado na sessão, o cineasta octogenário e morador do Vidigal há mais de cinco décadas, Sérgio Ricardo é tido por todos como um mestre inspirador. "Quando cheguei para morar no Vidigal, foi Sérgio que me desafiou a filmar. Fizemos Pé sem chão juntos e não paramos. Descobri um cinema possível. Afetivo e poderoso. Ele é nosso farol. Arte de resistência e coragem. Isso ele nos ensina a cada dia", afirma Daniel Paes que além de fazer a fotografia em Pé sem chão, trouxe Sérgio Ricardo como ator em Cacumbu, filme que leva o título de uma das canções do cineasta. "É uma honra a homenagem. Exibimos Bandeira de Retalhos, aqui. Trata-se de um mestre das artes. É um baluarte da arte brasileira, um cara de resistência. A imagem que muitos tem dele, antiga, é de quem quebrou o violão no festival da canção. Mas esse ato vai além de danificar o instrumento. É a representação da nossa gente, fazendo arte sem dinheiro, cinema sem dinheiro. Matando um leão por dia, quebrando um violão por dia. Muito antes dos Hendrix e Cobains tínhamos nosso Sergio Ricardo mostrando a revolta pela arte" comemora Cataldo.
Para quem quiser conhecer melhor essa geração criativa em alta qualidade de projeção e som e de quebra conhecer os realizadores a oportunidade parece única. As equipes e diretores estarão presentes e debaterão sobre o processo criativo e de produção na sessão que será aberta com a exibição do filme "A suíte epifânica de Luiza" do paulistano Elvis DelBagno.