18/09/2024
svetlana aleksiévitch
O fim do homem
soviético
Tradução do russo
Lucas Simone
Copyright © 2013 by Svetlana Aleksiévitch
Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990,
que entrou em vigor no Brasil em 2009.
Título original
Время секонд хэнд
Capa
Daniel Trench
Foto de capa
pg/ Magnum Photos/ Latinstock
Preparação
Ana Lima Cecílio
Revisão
Clara Diament
Marise Leal
[2016]
Todos os direitos
desta edição
reservados
à
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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)
(Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasil)
Aleksiévitch, Svetlana
O fim do homem soviético / Svetlana Aleksiévitch; tradução do
russo Lucas Simone. — 1a ed. — São Paulo: Companhia das Letras,
2016.
isbn 978‑85‑359‑2826‑6
. Guerra Mundial, 1939‑1945 – Atrocidades – Rússia – Narrativas
pessoais russas 2. Guerra Mundial, 1939‑1945 – Campanhas – Rússia –
Narrativas pessoais russas 3. Guerra Mundial, 1939‑1945 – Participação
feminina – Narrativas pessoais russas 4. Literatura russa I. Título.
16‑07719 cdd‑940.54217082
Índice para catálogo sistemático:
1. Russas: Narrativas pessoais : Guerra
Mundial, 1939‑1945 940.54217082
Sumário
Cronologia — A Rússia depois de Stálin .................................... 11
Observações de uma cúmplice..................................................... 19
primeira parte: o apocalipse como consolação
Sobre o ruído das ruas e as conversas na cozinha (1991‑2001).... 33
Sobre ivan‑bobinho e o peixinho dourado.............................. 33
Sobre começar a amar e sobre como deixamos de amar
Gorby...................................................................................... 37
Sobre como o amor veio, mas pela janela se viam tanques..... 41
Sobre como as coisas se equipararam às ideias e às palavras.... 45
Sobre crescer entre carrascos e vítimas.................................... 51
Sobre o que precisamos escolher: uma grande história
ou uma vida banal................................................................. 55
Sobre tudo............................................................................... 57
Dez histórias do interior vermelho.............................................. 60
Sobre a beleza da ditadura e sobre o mistério da borboleta
no cimento.............................................................................. 60
Sobre irmãos e irmãs, carrascos e vítimas… e sobre
o eleitorado........................................................................... 106
Sobre sussurros e gritos… e sobre o êxtase............................ 120
Sobre um solitário marechal vermelho e sobre os três dias
da revolução esquecida......................................................... 141
Sobre a esmola das lembranças e sobre a luxúria
do sentido.............................................................................. 184
Sobre uma outra bíblia e sobre outros crentes...................... 215
Sobre a crueldade da chama e sobre a salvação nas alturas. 241
Sobre a doçura do sofrimento e sobre o cerne do
espírito russo......................................................................... 271
Sobre o tempo em que qualquer um que matava alguém
pensava estar servindo a Deus.............................................. 305
Sobre a pequena bandeira vermelha e sobre o sorriso
do machado.......................................................................... 320
segunda parte: o fascínio do vazio
Sobre o ruído das ruas e sobre as conversas na cozinha
(2002‑12)..................................................................................... 369
Sobre o passado..................................................................... 369
Sobre o presente.................................................................... 376
Sobre o futuro....................................................................... 382
Dez histórias sem interior........................................................... 389
Sobre Romeu e Julieta… mas que se chamavam Margarita
e Abulfaz............................................................................... 389
Sobre as pessoas que rapidamente se transformaram
depois do comunismo........................................................... 408
Sobre a solidão que é muito parecida com a felicidade......... 429
Sobre o desejo de matá‑los todos, e depois sobre o horror
de ter desejado isso................................................................ 446
Sobre a velha com a foice e sobre a moça bonita.................. 465
Sobre a desgraça alheia que Deus colocou na soleira da
sua porta............................................................................... 493
Sobre a vida que é f**a e sobre os cem gramas de um
pozinho leve em um vasinho branco..................................... 511
Sobre como nada enoja os mortos e sobre o silêncio do pó... 524
Sobre uma escuridão pérfida e sobre “outra vida, que se
pode fazer a partir desta”...................................................... 549
Sobre a coragem e sobre o que vem depois dela.................... 573
Observações de uma cidadã....................................................... 593
Observações de uma cúmplice
Nós nos despedimos da época soviética. Daquela nossa vida
de antes. Venho tentando ouvir com franqueza todos os participantes
do drama socialista…
O comunismo tinha um plano insano: refazer o “velho homem”,
o antigo Adão. E conseguiram fazer isso… Talvez tenha
sido a única coisa que conseguiram fazer. Depois de setenta e tantos
anos, no laboratório do marxismo‑leninismo, cultivaram
uma espécie humana peculiar, o homo sovieticus. Uns consideram‑no
um personagem trágico, outros o chamam de sovok.*
Tenho impressão de que conheço essa pessoa, ela me é bem
conhecida, estou junto dela, vivi ao lado dela por muitos anos. Ela
sou eu. São meus conhecidos, meus amigos, meus pais. Durante
anos, viajei por toda a antiga União Soviética, porque o homo so‑
* Uma pá grande e rústica para apanhar lixo, no sentido literal. A partir dos
anos 1970, aproximadamente, passou a denotar o homem soviético de forma
pejorativa, sobretudo aquele que aderia cegamente à ideologia oficial. [Esta e as
demais notas são do tradutor.]
vieticus não é apenas o russo, mas também o bielorrusso, o turcomeno,
o ucraniano, o cazaque… Agora vivemos em países diferentes,
falamos línguas diferentes, mas somos inconfundíveis. Dá
para reconhecer de cara! Somos todos pessoas do socialismo, semelhantes
e não semelhantes às demais pessoas: temos nosso vocabulário,
nossa noção de bem e de mal, de heróis e de mártires.
Temos uma relação particular com a morte. São recorrentes nos
relatos que eu colho palavras que ferem os ouvidos: “atirar”, “fuzilar”,
“liquidar”, “passar em armas”, ou ainda aquelas variantes
soviéticas para desaparecimento, como “detenção”, “dez anos sem
direito a correspondência”, “emigração”. Quanto pode valer a vida
humana se nos lembrarmos de que há pouco tempo milhões
morreram? Estamos cheios de ódio e de preconceitos. Tudo vem
de lá, de onde havia o gulag e a terrível guerra. A coletivização, a
expropriação dos kulaks, a migração dos povos…
Isso era o socialismo, e essa era simplesmente a nossa vida. Na
época, falávamos pouco sobre ela. Mas agora que o mundo mudou
irreversivelmente, todos passaram a ter interesse naquela nossa
vida; não importa como ela era, essa era a nossa vida. Eu escrevo,
procuro nos grãozinhos e nas migalhas a história do socialismo
“doméstico”… do socialismo “interior”. De como ele vivia na alma
humana. Sempre sinto atração por esse pequeno espaço: o ser humano…
um ser humano. Na verdade, é lá que tudo acontece.
Por que no livro há tantos relatos de suicídios, e não de pessoas
soviéticas normais, com biografias soviéticas normais? No
final das contas, as pessoas se matam por amor, por medo da velhice,
ou sem muito motivo, por curiosidade, para decifrar o segredo
da morte… Busquei aquelas pessoas que se apegaram com
todas as forças ao ideal, absorveram esse ideal de tal forma que
não podiam se desprender dele: o Estado tornou‑se seu universo,
substituiu tudo nelas, até a própria vida. Elas não conseguiram
abandonar a Grande História, dar adeus a ela, ser felizes de outra
maneira. Mergulhar… perder‑se numa existência separada, como
acontece hoje em dia, quando o pequeno tornou‑se grande. O ser
humano quer apenas viver, sem um grande ideal. Isso nunca aconteceu
na vida russa, e nem a literatura russa conhece isso. No geral,
somos um povo bélico. Ou guerreávamos ou nos preparávamos
para a guerra. Nunca vivemos de outra maneira. Daí vem uma
psicologia bélica. Mesmo durante a paz, tudo na vida era próprio
da guerra. O tambor batia, a bandeira esvoaçava… o coração saltava
do peito… A pessoa não percebia sua escravidão, até amava
sua escravidão. Eu também me lembro: depois da escola, a classe
inteira se organizava para ir desbravar as terras virgens, desprezávamos
os que se recusavam, chorávamos e lamentávamos o fato
de que a Revolução, a Guerra Civil, tudo tinha acontecido antes de
nós. Ao olhar para trás, será que éramos nós mesmos? Era mesmo
eu? Eu me lembrava junto com os meus heróis. Algum deles disse:
“Só um soviético pode entender um soviético”. Éramos pessoas
com uma única memória comunista. Vizinhos de memória.
Meu pai lembrava que ele pessoalmente tinha acreditado no
comunismo depois do voo de Gagárin. Nós fomos os primeiros!
Nós podemos tudo! E foi assim que ele e a minha mãe nos educaram.
Eu era uma outubrista, usava uma medalhinha com um menino
de cabelo encaracolado; era uma pioneira, uma komsomolka.*
A decepção veio depois.
* Outubristas (em russo, oktiabriónok) eram crianças de sete a nove anos que
faziam parte da organização infantil do Partido, criada em homenagem à Revolução
de Outubro. A medalha citada pela autora era usada por essas crianças.
Os pioneiros eram, grosso modo, o equivalente soviético dos escoteiros. Komsomolka
era a jovem que fazia parte do Komsomol, a Juventude do Partido Comunista
da União Soviética.
Depois da perestroika, todos esperavam o momento em que
abririam os arquivos. E eles foram abertos. Ficamos sabendo da
história que tinham escondido de nós…
“Devemos arrastar conosco 90 milhões dos cem que povoam a
Rússia Soviética. Com os demais é impossível falar: é preciso destruí‑los.”
(Zinóviev, 1918)
“Enforcar (enforcar impreterivelmente, para que o povo veja)
pelo menos mil kulaks inveterados, dos mais ricos… tomar‑lhes o
pão, designar reféns… Fazer de tal forma que num raio de cem
verstas o povo veja e estremeça…” (Lênin, 1918)
“Moscou está literalmente morrendo de fome.” (professor Kuznetsov
a Trótski)
“Isso não é fome. Quando Tito tomou Jerusalém, as mães judias
comeram seus próprios filhos. Quando eu fizer suas mães comerem
os próprios filhos, aí você pode vir e dizer: ‘Estamos morrendo
de fome’.” (Trótski, 1919)
As pessoas liam os jornais e as revistas e f**avam caladas.
Sobre elas desabou um horror irremovível! Como viver com isso?
Muitos encararam a verdade como um inimigo. E a liberdade
também. “Não conhecemos nosso país. Não sabemos como pensa
a maioria das pessoas; nós as vemos, encontramos com elas
todos os dias, mas como elas pensam, o que querem, nós não sabemos.
Mas precisamos tomar coragem para estudá‑las. Logo saberemos
tudo. E f**aremos horrorizados”, disse um conhecido
meu, com quem eu sempre conversava na cozinha de casa. Discuti
com ele. Isso foi em 1991… Tempos felizes! Nós acreditávamos
que amanhã, literalmente amanhã, começaria a liberdade. Começaria
do nada, a partir dos nossos desejos.
Dos Diários de Chalámov: “Fui um participante da grande
batalha perdida pela renovação real da vida”. Isso foi escrito por
um homem que passou dezessete anos nos campos stalinistas. A
nostalgia pelo ideal permaneceu… Eu dividiria os soviéticos em
quatro gerações: a de Stálin, a de Khruschóv, a de Brêjniev e a de
Gorbatchóv. Sou dessa última. Para nós, foi mais fácil aceitar o
colapso do ideal comunista, já que não tínhamos vivido naquela
época em que o ideal era jovem, forte, com a magia daquele romantismo
funesto e daquelas esperanças utópicas ainda não dissipada.
Crescemos na época dos anciãos do Krémlin. Em tempos
vegetarianos, de jejum. O grande sangue do comunismo já tinha
sido esquecido. O entusiasmo causou estragos, mas resguardou o
conhecimento de que a utopia não pode se transformar em vida.
Foi na primeira guerra da Tchetchênia… Conheci uma mulher
numa estação de trem em Moscou, ela era de algum lugar nos
arredores de Tambov. Estava indo para a Tchetchênia, buscar o
filho da guerra: “Não quero que ele morra. Não quero que ele
mate”. O Estado já não possuía a sua alma. Era uma pessoa livre.
Havia poucas pessoas como aquela. Havia mais pessoas que se
irritavam com a liberdade: “Comprei três jornais, e em cada um
tinha uma verdade. Onde é que está a verdade real? Antes você lia
o jornal Pravda* de manhã e f**ava sabendo tudo. Entendia tudo”.
Demoravam para sair da anestesia da ideia. Se eu começasse a falar
de arrependimento, em resposta ouvia: “E do que eu tenho que
me arrepender?”. Cada um se sentia vítima, mas não cúmplice.
Um dizia “eu também fui preso”; outro, “eu lutei na guerra”; um
terceiro, “eu ergui minha cidade dos escombros, carreguei tijolo
dia e noite”. Isso era totalmente inesperado: todos estavam ébrios
com a liberdade, mas não prontos para ela. Onde é que ela estava,
a liberdade? Só na cozinha, onde continuavam xingando o governo,
como de costume. Xingavam Iéltsin e Gorbatchóv. Iéltsin por
* Pravda em russo signif**a “verdade”.
ter traído a Rússia. E Gorbatchóv? Gorbatchóv por ter traído tudo.
Todo o século xx. Agora para nós também será como é para os
outros. Para todos. Pensávamos que dessa vez daria certo.
A Rússia mudou, e odiou a si mesma por ter mudado. “O
mongol imóvel”, escreveu Marx sobre a Rússia.
A civilização soviética… Tenho pressa para gravar seus rastros.
Rostos conhecidos. Não faço perguntas sobre o socialismo,
mas sobre o amor, o ciúme, a infância, a velhice. Sobre música,
danças, penteados. Sobre os milhares de detalhes de uma vida que
vai desaparecendo. Essa é a única maneira de enquadrar a catástrofe
no contorno do cotidiano e de tentar contar alguma coisa.
De compreender alguma coisa. Não canso de me surpreender
com o quão interessante é a vida humana comum. A infinita
quantidade de verdades humanas… A história se interessa apenas
pelos fatos, mas as emoções f**am à margem. Não é costume admiti‑las
na história. Eu, porém, olho para o mundo com os olhos
de uma pessoa de humanas, não de historiadora. E me surpreendo
com o ser humano.
Já perdi meu pai. E não posso mais terminar uma das conversas
que tive com ele… Ele disse que morrer na guerra era mais
fácil para seus contemporâneos do que para aqueles meninos bisonhos
que estavam então morrendo na Tchetchênia. Nos anos
1940, eles saíram de um inferno para outro. Antes da guerra, meu
pai estudava em Minsk, no Instituto de Jornalismo. Ele lembrava
que, quando voltavam das férias, era comum não encontrarem
um professor conhecido sequer, todos tinham sido presos. Eles
não entendiam o que estava acontecendo, mas tinham medo. Tinham
medo, como na guerra.
Meu pai e eu tínhamos poucas conversas francas. Ele tinha
pena de mim. E eu, tinha pena dele? Tenho dificuldade em responder
a essa pergunta… Éramos implacáveis com nossos pais.
Achávamos que a liberdade era uma coisa muito simples. Pouco
tempo se passou, e nós mesmos nos curvamos sob o seu fardo,
porque ninguém nos ensinou o que era a liberdade. Só nos ensinaram
a morrer pela liberdade.
Aí está ela, a liberdade! Foi essa que nós esperamos? Estávamos
dispostos a morrer por nossos ideais. Travar uma luta. Mas
então começou uma vida “tchekhoviana”. Sem história. Ruíram
todos os valores, exceto pelos valores da vida. Da vida em geral.
Novos sonhos: construir uma casa, comprar um bom carro, plantar
uma groselheira… A liberdade acabou sendo a reabilitação da
pequena burguesia, geralmente espezinhada na vida russa. A liberdade
de Sua Majestade, o Consumo. Da grandeza das trevas.
Das trevas dos desejos, dos instintos, da vida humana secreta, de
que tínhamos só uma vaga noção. Durante toda a história sobrevivemos,
mas não vivemos. E agora aquela experiência de guerra
já não era necessária, era preciso esquecê‑la. Milhares de novas
emoções, de situações, de reações… Como que de súbito, tudo ao
redor ficou diferente: as placas, as coisas, o dinheiro, a bandeira…
E o próprio ser humano. Ele se tornou mais colorido, mais particular,
o monólito voou pelos ares, e a vida dissipou‑se em pequenas
ilhas, em átomos, em células. Como está em Dal:* liberdade e
vontade… vontade e espaço… liberdade e vastidão. O grande
mal tornou‑se uma lenda distante, um romance político detetivesco.
Ninguém falava mais do ideal, falavam de crédito, de por‑
* Vladímir Ivánovitch Dal (1801‑72), famoso lexicógrafo russo. Seu dicionário
da língua russa, publicado nos anos 1860, é utilizado até hoje. Muitos dos verbetes
trazem referências etimológicas e associações semânticas que não possuem
análogos nas línguas neolatinas, como a mencionada no texto, entre liberdade
e espaço ou vastidão.
centagens, de câmbio; não ganhavam mais dinheiro, agora “faziam”,
“lucravam”. Será que por muito tempo? “A mentira do
dinheiro na alma russa é inextirpável”, escreveu Tsvetáieva. Era
como se os heróis de Ostróvski e de Saltykov‑Schedrin tivessem
ganhado vida e flanassem por nossas ruas.
Eu perguntava a todos com quem me encontrava: “O que é a
liberdade?”. Pais e filhos respondiam de maneiras diferentes. Os
que nasceram na urss e os que não nasceram na urss não têm
experiências em comum. São seres de planetas diferentes.
Para os pais: a liberdade é a ausência do medo; os três dias de
agosto em que vencemos a tentativa de golpe; uma pessoa que
escolhe no mercado entre cem tipos de kolbassá* é mais livre que
uma pessoa que escolhe entre dez tipos; é não ser chicoteado, embora
nós nunca cheguemos a ver uma geração que não tenha sido
chicoteada; o russo não entende a liberdade, ele precisa do cossaco
e do açoite.
Para os filhos: a liberdade é o amor; a liberdade interna é o
valor absoluto; quando você não tem medo dos seus desejos; é ter
muito dinheiro, porque então você terá tudo; quando você consegue
viver de maneira a não pensar na liberdade. Liberdade é o
normal.
Estou procurando uma linguagem. O ser humano tem muitas
linguagens: há aquela em que conversamos com as crianças;
há ainda aquela em que se fala de amor… Mas há também a linguagem
em que falamos conosco mesmos, construímos nossas
conversas interiores. Na rua, no trabalho, em viagens: em todo o
* Tradicional embutido russo, semelhante ao salame. É proverbialmente associado
a comida e a abundância, tendo certo paralelismo com o conceito popular
de “mistura”.
lugar, ressoa algo diferente, mudam não somente as palavras, mas
alguma outra coisa. Até de manhã e à noite as pessoas falam de
maneiras distintas. E aquilo que acontece de madrugada entre
duas pessoas desaparece completamente da história. Nós nos relacionamos
apenas com a história do homem diurno. O suicídio
é um tema noturno, o ser humano se encontra na fronteira entre
o ser e o não ser. Do sonho. Quero compreender isso com a mesma
meticulosidade do homem diurno. Ouvi: “Não tem medo de
gostar?”.
Viajávamos pela região de Smolensk. Em uma cidadezinha,
paramos perto de um mercado. Que rostos familiares (eu mesma
cresci em cidade pequena), que rostos bonitos e bons; e que vida
humilhante e miserável ao redor. Começamos a falar da vida.
“Você está perguntando de liberdade? É só passar no nosso mercado:
tem a vodca que você quiser, Standart, Gorbatchóv, Pútinka,
kolbassá aos montes, queijo, peixe. Tem banana. Quem precisa de
mais liberdade? Isso aqui é o bastante.”
“E terra, vocês receberam?”
“E quem é que vai dar o suor nela? Quem quiser pode pegar.
Aqui um tal Vaska Krutoi pegou. Tem um moleque de oito anos,
que f**a puxando o arado do lado do pai. Se você for trabalhar
com ele, enquanto não roubar, não descansa. É um fascista!”
Em “A lenda do Grande Inquisidor”, de Dostoiévski, há um
debate sobre a liberdade. Sobre o fato de que o caminho da liberdade
é difícil, penoso, trágico… “Para que conhecer esse ma***to
bem e mal, quando isso custa tão caro?” O tempo todo o ser humano
deve escolher: a liberdade ou o bem‑estar e a ordem na vida;
a liberdade com sofrimento ou a felicidade sem liberdade. E a
maioria das pessoas escolhe o segundo caminho.
O Grande Inquisidor diz a Cristo, que voltou à terra:
Por que vieste para nos atormentar? Pois Tu vieste para nos atormentar,
e Tu mesmo o sabes.
Por tanto respeitar o Homem, Tu agiste como se deixasses de ter
piedade dele, porque exigiste demais dele… Respeitando‑o menos,
menos exigirias dele, e isto seria mais próximo do amor, pois
mais leve seria seu fardo. Ele é fraco e vil… Em que pode ser culpada
uma alma fraca, que não tem forças para conter dádivas tão
tremendas?
Não há tarefa mais incessante e torturante para o homem do que,
tendo se tornado livre, encontrar depressa alguém diante de quem
possa curvar‑se… e a quem possa repassar depressa aquela mesma
dádiva da liberdade com que essa criatura infeliz nasce…
Nos anos 1990… sim, éramos felizes, já não podemos retornar
àquela nossa ingenuidade. Pensávamos que a escolha tinha
sido feita, que o comunismo perdera de maneira irreversível. Mas
estava tudo apenas começando…
Vinte anos se passaram… “Não nos assustem com o socialismo”,
dizem os filhos aos pais.
De uma conversa com um conhecido meu, professor universitário:
No fim dos anos 1990, os alunos riam — contava ele — quando
eu relembrava a União Soviética, eles tinham certeza de que um
novo futuro se abria diante deles. Agora o quadro é diferente… Os
alunos de hoje já descobriram, já sentiram na pele o que é o capitalismo:
desigualdade, pobreza, riqueza descarada; eles já viram
bem de perto a vida dos pais, para quem não sobrou nada da pilhagem
do país. E eles adotaram uma postura radical. Sonham
com a sua própria revolução. Usam camisetas vermelhas com retratos
de Lênin e Che Guevara.
Há um novo apelo pela União Soviética. Pelo culto a Stálin.
Metade dos jovens de dezenove a trinta anos considera Stálin “um
grande político”. Num país em que Stálin aniquilou mais pessoas
do que Hi**er, um novo culto a Stálin?! Tudo que é soviético está
de novo na moda. Por exemplo, os cafés “soviéticos”, com nomes
soviéticos e comida soviética. Apareceram doces “soviéticos” e kolbassá
“soviética”, com o cheiro e o gosto que conhecíamos desde a
infância. E, claro, a vodca “soviética”. Na televisão, dezenas de programas,
e na internet dezenas de sites de nostalgia “soviética”. Você
pode visitar como turista os campos stalinistas — Solovkí, Magadan.
O anúncio afirma que, para uma sensação plena, você vai
receber um macacão de campo, uma picareta. Mostram
os barracões
restaurados. E no fim organizam uma pescaria…
Ideias antiquadas estão de volta: do Grande Império, da
“mão de ferro”, do “caminho peculiar da Rússia”… Restituíram o
hino soviético, existe um Komsomol, só que ele se chama Náchi,*
existe o partido do poder, que copia o partido comunista. O presidente
tem o mesmo poder do secretário‑geral. Absoluto. Em vez
do marxismo‑leninismo, a Igreja ortodoxa…
Antes da revolução de 1917, Aleksandr Grin escreveu: “E o
futuro parece que deixou de estar em seu próprio lugar”. Cem
anos se passaram, e mais uma vez o futuro não está em seu lugar.
Chegou a época do second‑hand.
* “Os nossos”, no sentido literal. Organização política jovem que apoiava o governo
Pútin. Deixou de existir em 2013.
* * *
Barricadas são um lugar perigoso para um artista. Uma armadilha.
Lá, a visão f**a estragada, as pupilas se fecham, o mundo
perde as cores. Lá, o mundo torna‑se preto e branco. De lá, já não
se distingue um ser humano, você só vê um ponto preto: um alvo.
Passei a vida toda nas barricadas; eu gostaria de sair de lá. Aprender
a ter alegria com a vida. Ter de volta minha visão normal. Mas
dezenas de milhares de pessoas saem novamente às ruas. De mãos
dadas. Elas têm fitas brancas nos casacos. Um símbolo de renascimento.
De luz. Eu também estou com eles.
Encontrei na rua jovens usando camisetas com a foice e o
martelo e o retrato de Lênin. Será que eles sabem o que é o comunismo?
36 anos de respeito à inteligência do leitor.