Gijo, o mestre dos embutidos
Há 71 anos no Bairro Vila Mariana, Luiz Trozzi deu início ao comércio de diversos tipos de linguiças artesanais, onde hoje após seu falecimento suas filhas Gina e Giselle dão continuidade à tradição. No meio de um quarteirão tranquilo da Rua Doutor Pinto Ferraz, na Vila Mariana, o movimento na porta de um acanhado ponto comercial chama atenção. Durante muito tempo fig
urou na entrada uma placa feita a mão que não deixava dúvida sobre a especialidade da casa e a “modéstia” do proprietário. “As melhores linguiças do mundo”, lia-se no letreiro. A maioria dos fregueses nunca achou a coisa exagerada, mas o cartaz acabou sendo retirado porque se revelou desnecessário depois que a fama do local correu a cidade no marketing boca a boca. Alguns dos clientes chegam hoje a atravessar a capital em busca dos produtos ali vendidos há 68 anos. São 15 receitas do embutido, todas de produção artesanal. Na lista de suas invenções há calabresas que levam recheios de queijo provolone e tomate seco ou de oito tipos de ervas. “Desafio quem faça algo melhor”, dizia o simpático comerciante falecido aos seus 84 anos. De óculos escuros e trajando calças e sapatos brancos, parecia um personagem da saga “O Poderoso Chefão”, de Francis Ford Coppola. Nascido no Bixiga e filho de italianos, Gijo dava expediente no ambiente decorado com dezenas de quadros com fotos da família, de Jesus Cristo e de vários santos (ele era devoto de São Luís Gonzaga, padroeiro da juventude). O lojista que trabalhava com o pai desde os 8 anos de idade e herdou dele, este açougue no fim da década de 40. “Fico aqui desde quando tinha a altura do balcão”, dizia ele. Começou vendendo os três sabores tradicionais: calabresa, calabresa com pimenta e toscana. Aos poucos, foi ampliando o cardápio, conquistando o paladar de gente como a apresentadora Hebe Camargo e o chef Alex Atala. “No Brasil, temos grandes linguiceiros, mas nenhum tem tanto apreço pela perfeição quanto ele tinha”, elogia o Sr. Massimo Ferrari, cliente e amigo há quarenta anos. Gijo também foi a estrela do programa de gastronomia de Olivier Anquier, o “Diário do Olivier”, exibido pelo canal pago GNT. Os dois se deram tão bem na gravação que ficaram próximos e conversavam sempre. O mestre dos embutidos trabalhava doze horas por dia e jurava que nunca tirou férias. Sua rotina era preenchida pelo atendimento ao público e pela supervisão da produção. Até meados dos anos 70, fabricava os produtos no próprio açougue que mantinha atrás da loja. Atualmente, isso fica a cargo de frigoríficos parceiros, que executam suas receitas. Já tivemos até exportações para outros países, além de Japão, Bélgica e Estados Unidos, entre outros. “Há alguns anos, um coreano me viu na televisão e queria provar de qualquer jeito as coisas do meu cardápio”, contava Gijo. “Ele pegou um voo para o Brasil, apareceu aqui e adorou tudo. ”
Nas raras horas de folga, ele gostava de apostar em cavalos, fazer pescarias e ver da poltrona de sua casa os jogos do Palmeiras. Viúvo desde 1997, tem duas filhas que hoje seguem com o negócio em sua ausência.