03/04/2026
O Cinema Nacional não tem falta de público; tem falta de visão industrial.
Os dados são irrefutáveis: a concentração de 73% do público em apenas sete títulos e o abismo de 163 filmes que não alcançaram sequer mil espectadores é o sintoma de uma doença que fingimos não ver. No entanto, discordo de onde reside a raiz do problema. O erro não está no espectador, mas sim na régua de quem escolhe o que o Brasil deve ou não produzir.
Como diretor e roteirista independente, sinto na pele o gargalo da curadoria. Enquanto o mercado pede diversidade e filmes de gênero que dialoguem com a audiência, as comissões julgadoras e as curadorias dos grandes festivais nacionais (e internacionais como Cannes ou Sundance) parecem presas a uma bolha de "cinema de arte" contemplativo. Criou-se um abismo: de um lado, o blockbuster de estúdio; do outro, o filme experimental que ignora o espectador.
Onde f**a o meio do caminho? Onde f**a o cinema de gênero?
Meu filme, "Não Somos Inocentes", é um exemplo dessa resistência. É um neo-noir de ação, uma mistura visceral que busca o entretenimento com qualidade técnica. É o tipo de cinema que o brasileiro consome aos montes quando vem de Hollywood. Mas, ao tentar as telas nacionais, esbarro em curadorias que não pensam o cinema como indústria. Se o filme tem ritmo, se tem ação, se busca o público, ele é frequentemente visto com desconfiança por quem detém o poder da "escolha artística".
Se continuarmos a premiar apenas o hermético e a ignorar o potencial do cinema de gênero — o suspense, o terror, a ação bem feita —, continuaremos a alimentar a estatística dos "invisíveis". Um filme que não é visto não completa seu ciclo social e econômico.
O problema não é a falta de investimento apenas; é a falta de diversidade no olhar de quem investe e de quem seleciona. Precisamos de uma comissão que entenda de mercado, que entenda que o cinema precisa ser sustentável para ser arte. O cinema de gênero não é "menos"; ele é a ponte necessária para tirar o audiovisual brasileiro da UTI dos 0,3% de público.
Enquanto tratarmos o cinema apenas como um exercício de ego para festivais europeus e não como uma indústria que precisa gerar bilheteria, empregos e conexão real com o povo, o "mito do sucesso" continuará sendo exatamente isso: um mito para poucos, enquanto o resto de nós, que fazemos cinema de verdade, continuamos gritando no deserto.
Joeli Pimentel
Diretor, Roteirista e Produtor (Joda Filmes)