01/05/2025
Quando senti que um vazio tomou conta de mim...38h sem dormir, fazendo a cobertura do funeral do Ayrton Senna
"A última curva de um herói"
Quarta-feira, 4 de maio, 94 9h45.
Depois de horas na estrada, chego à cidade de São Paulo. O que vejo não é a metrópole de sempre. É uma cidade paralisada pela dor. Os rostos nas ruas são espelhos da tristeza. Gente parada diante das televisões, olhos marejados, acompanhando a chegada de Ayrton Senna ao Monumental da Assembleia Legislativa. Um senhor muito idoso, encostado à sua mala, chora como se perdesse um filho. Era como se todos tivessem perdido alguém da família.
Crianças, mulheres, homens — todos com lágrimas no rosto. Na rodoviária, jovens gritavam: “Olê, olê, olá... Senna! Senna!”, num coro emocionado. Quem passava fazia o sinal da cruz, outros erguiam os braços, punhos cerrados, como se quisessem, de alguma forma, segurar aquela dor. Era um luto coletivo. Uma nação de corações partidos.
Dentro de um táxi, a caminho da Assembleia, vejo a cidade desbotada. Bandeiras do Brasil com uma faixa preta tremulavam ao vento. As pessoas, vestidas de verde e amarelo, caminhavam cabisbaixas, como se o orgulho tivesse sido arrancado do peito.
Cheguei à Assembleia Legislativa e o que vi me tirou o fôlego. Filas que não terminavam, uma confusão silenciosa. Gente pendurada em árvores, tumulto nas entradas. Procurei o acesso da imprensa, mostrei a credencial a um guarda rígido, e entrei. Dentro do saguão, o silêncio era quase sagrado. A gravidade do momento pairava no ar como uma névoa pesada.
Tentei ser forte. Mas quando vi o caixão, coberto com a bandeira do Brasil e cercado pela guarda de honra, algo dentro de mim se partiu. As lágrimas vieram sem pedir licença. Encostei-me a uma parede e chorei, como há muito não chorava. Estava atônito. Um jornalista italiano, próximo de mim, também chorava. O sonho tinha acabado.
Pessoas de todas as idades desfilavam diante do ídolo. Em silêncio, com respeito. Um jovem enrolado na bandeira do Brasil ajoelhou-se, segurando as grades que o separavam do herói. Chorava como quem perde o chão.
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