14/04/2021
O espaço alegórico em filmes brasileiros do momento tropicalista. Escrito por Adriano Del Duca e apresentado no XXIII ENCONTRO SOCINE em outubro de 2019.
LINK PARA O ARTIGO ORIGINAL:
https://www.socine.org/wp-content/uploads/anais/AnaisDeTextosCompletos2019(XXIII).pdf
Neste artigo o autor na sua concepção faz análise de quatro filmes produzidos no período de 1967-1972 em um período de ditadura militar, em um momento marcado pela censura em todos os níveis, principalmente a cultura, refletido pela situação real de um país assombrado pela pobreza, o jogo político e o descaso governamental, além da valorização da cultura popular da época buscando com uma visão crítica.
"No final dos anos 1960 e início dos 1970 diversos filmes brasileiros lançaram mão de recursos alegóricos para construção do seu campo narrativo. Personagens, locais, épocas construídos livremente na mas ancorados em representações da realidade social e política do país."
"De forma exploratória e algo provisória, nos interessa refletir sobre a construção das espacialidades destas alegorias, pensando a representação desses ‘Brasis’ alegóricos do cinema brasileiro impactados por ecos da experiência tropicalista. Há aqui um diálogo com o livro Alegoria dos subdesenvolvimentos: cinema novo, tropicalismo e cinema marginal, de Ismail Xavier, mais especificamente aos capítulos “Terra em Transe: alegoria e agonia” e “Brasil Ano 2000: o mal congênito da província”, a fim de pensar os filmes Pindorama (Arnaldo Jabor, 1970) e Prata Palomares (André Faria, 1971) em balizas teóricas ‘tomadas de empréstimo’ dos textos de Ismail. Assim, apontamos o ‘espaço alegórico’ como uma construção coincidente que nos permite traçar uma rota comparativa entre obras que lançam mão da alegoria no período compreendido como ‘momento tropicalista 3 (1967-1972)."
Resumo dos Filmes analisados pelo autor:
Terra em Transe (Glauber Rocha, 1967).
Os personagens têm referentes concretos na realidade sócio histórica: o intelectual de esquerda, o político conservador, o político populista, o povo amorfo, as lideranças populares; a trama e as viradas narrativas são referentes a processos reais da disputa do poder no mundo colonial latino-americano: populismo, clientelismo, revoltas populares, golpes de estado.
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Brasil Ano 2000 (Walter Lima Jr. 1969)
Entre um humor jocoso e um pessimismo sórdido quanto à representação da nação, a “alegoria do esquecimento” (XAVIER, 1992) de Brasil Ano 2000 sustenta-se na relação com o lugar Me Esqueci. O “País do Futuro”, lugar utópico e inalcançável reservado ao Brasil, é reelaborado como distopia diante da realidade lancinante de uma ditadura militar que expunha sua face violenta e autocrática no Brasil de 1969.
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Pindorama (Arnaldo Jabor, 1970).
A “alegoria de fundação” de uma nação que talvez possa ser lida em Pindorama, não aponta a resolução dos conflitos a estruturação de um meio social coeso em torno da figura da lei e da autoridade, mas sim um universo catastrófico e impotente onde a autoridade não vigora senão pela força, e a formação social do território é resultado do conflito e da violência como expressão legítima do Poder.
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Prata Palomares (André Faria, 1971)
O recurso à alegoria de uma revolução derrotada, de guerrilheiros em fuga, de uma elite parasitária e entreguista, bem como à tresloucada atuação da esquerda, aliando se à tradição messiânica e religiosa, só podem sustentar-se narrativamente na medida em que se relacionam com um espaço que embora fictício, oferece pontos de contato com a alguma realidade sócio-histórica, onde através do referencial linguístico, constroem-se sentidos políticos que evidenciam uma consciência da crise que se vivia naquele momento. A postura do cineasta na organização da narrativa, desarticulando as estruturas temporais, espaciais, e a clareza dos personagens, indica a tentativa de estilhaçar a legibilidade do filme e estabelecer um olhar sociológico crítico à construção do território, da formação do Estado e a forma da dominação política no Brasil.