As comunicações no colóquio Figuras do Heroi, que se reaIiza na UM nos dias 26, 27 e 28 de Abril de 2012, podem tratar apenas um ou combinar alguns destes tópicos:
O herói e a Lei
Prometeu, Roland, D. Juan, Antígona... encarnam diferentes regimes da relação do herói à lei (fundação, desafio, submissão, subtração, resistência). Até que ponto o herói serve o superior interesse coletivo ou bem comu
m ? Qual o peso dos interesses e inclinações pessoais (a vingança, por exemplo) na aventura ? O que significa do ponto de vista ético a função de vítima sacrificial que alguns heróis assumem ao servirem o bem comum? Aqueles que quebram as leis fundamentais da ordem humana (Édipo, D. Juan, Fantômas) podem ser considerados heróis ? O anti-herói
Ao inverso das narrativas mais clássicas, a (pós-)modernidade assistiu à consolidação da figura do anti-heroi, muito presente, por exemplo, no cinema. Trata-se daquele tipo de protagonista, cuja origem mais ao menos remota se situa no Romantismo, em torno do qual gravita a acção, mas que já não se apresenta marcado por uma moralidade sem mácula. Este tipo de herói já não visa forçosamente o resgate de um bem comum e cede facilmente a derivas marginais; no plano ético, pauta-se não poucas vezes por uma moralidade assaz dúbia, que não hesita em cometer o crime em nome de um valor superior, por exemplo; ou mesmo em nome de um interesse meramente pessoal. É exemplo suficiente deste tipo de anti-herói o protagonista sem nome dos westerns de Sérgio Leone, carismaticamente desempenhado por Clint Eastwood. Morfologias da aventura
A aventura pode consistir numa ação exterior de purificação do mundo com um eventual significado histórico-político: procurar um tesouro, libertar alguém, descobrir um criminoso, combater terroristas, traficantes, tiranos; ou numa ação interna de purificação espiritual e acesso a um saber ou verdade sobre sobre si mesmo, sobre o mundo e sobre a vida; ou em combinações várias de ambas as formas cujos regimes importa estudar. Qual a relação da aventura com a vida quotidiana ? Insere-se ela na existência compreendida entre o era uma vez e o viveram felizes para sempre do conto ? Ou corresponde a aventura, pelo contrário, a uma descontinuidade na linearidade da existência que a projeta para um plano transbiológico que deixa o her´ói sem passado e sem futuro ? Quais os processos de desconstrução da aventura e da sua absorção pelo everyday life? Mmorfologias e regimes poderão estar associados a paradigmas da aventura ? Será possível falar em regimes ou modelos tradicionais, modernos e pós-modernos da aventura ? Herói e Família
Hércules, Artur, Tintin, Wonder Woman, Moisés, Perceval, Beatrix K.… Órfãos, bastardos, crianças expostas, sem família, matricidas... As relações do herói com a família de origem e/ou com a família que ele ou ela constituiu são problemáticas. Dividido entre a aventura e a família (que abandona, trai, esquece provisoriamente ou para sempre e/ou que protege, salva, recompõe, reune), o herói aparece frequentemente dilacerado entre a esfera pública e a esfera privada da existência, mantendo-as em tensão ou fazendo-as coincidir. Que configurações da relação entre público e privado encontramos e que perfis heróicos lhes estão associados ? Heróis e máscaras
Os perfis heróicos resultam de uma retórica da (auto)apresentação e (auto)representação, incluindo retrato e auto-retrato, auto-encenação, pose, atitude. Desde o Bel Inconnu, o cavaleiro incógnito dos romances medievais, até Zorro ou Spirit, passando pelos super-heróis, fatos, armas, máscaras e mascarilhas dão contornos de sombra e de mistério à identidade opaca ou perdida do herói. Outras formas há porém de encenar uma opacidade subjetiva ou uma personalidade enigmática sem usar máscara (por exemplo, a pose de Corto Maltese). Como funcionam essas formas de márcara sem máscara ? Heróis digitais
Com o desenvolvimento do cinema de animação digital, novos protagonistas, marcados por novas figurações, ganharam relevo e assumem-se explicitamente como sucessores das outrora célebres figuras, nomeadamente as do imaginário da Disney, mas não só. Estas figuras heroicas, que tanto são decalcadas de gente de carne e osso, como podem provir de esferas perfeitamente inumanas (como é o caso de carros que falam e heroicamente ganham corridas; ou brinquedos que convivem com humanos e que destes se destacam pela aventura de que são objeto), podem (d)enunciar já uma dimensão heróica pós-humana. Heróis e paródia
A pós-modernidade detém-se a reformular parodicamente muitas das narrativas patrimoniais, e não apenas. Assim, se o imaginário dos contos de fadas é reescrito a partir da figura grotesca de um ogre simpático que percorre um trajeto heroico em tudo tradicional, só que subvertendo parodicamente as componentes canónicas desses contos de fadas, com efeitos de inegável humor, como é próprio da paródia, a verdade é que também um herói como o célebre espião 007 não escapa a ser parodiado por um não menos célebre duplo paródico, Johnny English (Rowan Atkinson). Quais as relações que os heróis mantêm com os seus duplos paródicos? Em que componentes assenta sobretudo a paródia e a desconstrução cómica da figura do herói?